[A minha cabeça está um caos, por isso escrevo. Porque quando escrevemos ninguém nos ouve e nós falamos, deitamos cá para fora o que protegemos cá dentro. Ardem-me os olhos de tanto chorar mas, acredito que o que arde cura. Há dias assim, como o de hoje em que saí de casa porque estava a dar em doida com tanta recordação. Saí sem destino e parei em frente ao mar... Não queria estar sozinha mas também não queria testemunhas para as minhas lágrimas. Só nós já éramos uma multidão barulhenta. Procurei um sítio para estar só e aprender a ficar assim, sozinha comigo. Acabei perto daqueles que foram até ao mesmo sítio para também ficarem sós. A sós... S.O.S... curioso! Sinto-me perdida e acabei perdida em Lisboa, sem rumo, seguindo o carro da frente. Passei em locais familiares e descobri um roteiro "queloziano" que me tocou aqui e ali. Escrevo porque quando lemos, ouvimos uma voz dentro de nós a contar-nos o que lê. Uma voz que fala baixinho como quando queremos que nos oiçam com atenção. Será que é a minha voz que ouves ou já a esqueceste entre tantas outras? Tenho saudades... O ódio é uma forma de amar aqueles que já não podemos ter perto de nós e juro que, por vezes, não sei se te amo, se te odeio, se odeio amar-te ou se amo odiar-te! Sinto tanta coisa diferente que tento reprimir durante o dia, entregando-me ao trabalho sem me entregar. Não tenho memória para os meus dias, não fixo pacientes, nem patologias nem tratamentos. Limito-me a assentar tudo num caderninho que está por ordenar e passar a limpo. Sinto-me desintegrada e não estou a conseguir dar a volta. Mas os dias lá passam, uns mais depressa, outros mais devagar. O pior chega à noite, quando a intimidade e a saudade apertam e se protegem no escuro. Elas galgam terreno e quebram-me. Eu fecho os olhos e tento sonhar com o voar do tempo, acreditar que é real e que o dia está a chegar afastando a solidão e a memória. Eu choro... porque me lembro e não consegui esquecer. Dói, consome e mata... Cada vez sinto mais que morri para o amor. Foi algo que conheci e vivi do avesso. É um sítio proíbido que tal como os unicórnios, fadas e príncipes encantados, não existe, ou existe para aqueles que acreditam no resto do "era uma vez, há muito tempo atrás, num reino distante..." Refugio-me no instantâneo e desdramatizo. Chego a acreditar que é com as desvalorizações que cada vez nos valorizamos mais. Posso estar apenas a tentar auto-convencer-me, preciso disso. Tudo é volátil, o que um dia parece certo, no outro é um erro e começo a ter um erro favorito. Já alguém escreveu sobre isso, há uma musica, penso eu, "my favourite mistake". E eu tenho um erro recorrente. Sinto-me a errar ou prestes a errar... Ou será que já errei? Quem decide o que é o erro? Sinto-me a errar conscientemente, para qualquer lado que me vire. Talvez seja daqueles erros dos quais estamos tão certos que passam a ser verdade, ou então não... As respostas não aparecem. A minha voz interior não responde, só pergunta e complica. Não sei quem ouvir, quando eu própria me sinto em silêncio. Quem fala são as teclas, como num piano mágico que toca sozinho. Sinto saudades de um passado que não posso esquecer, parte de mim que me faz hoje aquilo que não quero ser. Passei a semana doente, será só um devaneio febril? Quem me defende dos meus próprios ataques? Quem me defende da noite? Tenho saudades da forma e do teu gesto de quando me ajeitavas o cabelo e a gola sempre que eu vestia um casaco. Dizes-me para crescer...erro ao pensar que seria para sempre aquela míuda tola... Quem sabe? Todo o meu percurso tem erros, eu errei primeiro e mais vezes, acredita... Não quero pensar que foste um erro ou que eu fui um erro para ti mas se assim fosse, "you're my favourite mistake"...]